Posts Marcados Com: França

Dias vão, outros vem…

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Final de ano, mais um ciclo que se encerra. São mais 365 dias que ficam no passado e entram para a história de nossas vidas. Momento de renovação, de faxina geral, de sacudir a poeira, levantar a cabeça e rodar a baiana. Acredito que não havia melhor hora para reinaugurar este blog. Um pouco nostálgico, talvez, mas agora de vida nova. A França e o sonho francês fazem agora parte da minha história. Pedras fundamentais para o meu crescimento e amadurecimento, que estarão guardados com carinho no meu baú para uma revisitada sempre que preciso for.

Depois de colocada essa, que considero a última pá de cimento em cima disso tudo, revestida com o sorriso e a alegria das terras brasileiras (e com a certeza de que melhor lugar não há), com a proximidade do verão, do ano-novo e do carnaval, posso dizer que estou realizada e plenamente feliz. Feliz pelas conquistas passadas, realizada com o presente e com uma expectativa imensa de futuro, seja ele profissional, pessoal ou espiritual. Seja bem vindo 2015, estou pronta para o que der e vier. Que eu possa continuar a ser brindada com as boas novas da vida. Que as tristezas e decepções que aparecerem (sim, elas são inevitáveis), cheguem de mansinho, embrulhadas em um papel fino e charmoso, com um laço dourado, e que seu prenúncio e anunciação não sejam assim tão devastadores.

Que a vida continue a me proporcionar experiências únicas e pessoas incríveis, como as que vivenciei nesses dois anos no exterior. Que meus olhos não se acostumem com a paisagem, e que a cada novo passeio, mesmo que sejam pelos mesmos velhos lugares, que consiga enxergar novas formas, perspectivas e cores. Que eu siga nessa grande roda gigante da vida, ora voando, ora colada ao chão, sem perder um detalhe sequer. Que o frio na barriga e o rubor nas bochechas nunca me abandonem. Enfim, que eu nunca perca a coragem e o tesão pela vida. Esse é o meu desejo para mim e para vocês!

OBS.: tiro a poeira deste blog, mas o mantenho com o mesmo nome. Afinal, um sonho francês não morre jamais!

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França, nem fui embora e já estou com saudade!

Gratidão é a palavra que resume esse sonho!! :)

Gratidão é a palavra que resume esse sonho!! 🙂

Quando as pessoas me diziam que sentiria falta desse lugar, recebia como uma piada de mau gosto. Imagina eu, logo eu, sentir falta desse amontoado de terras ao sul da França! Sentir falta dessa gente (muitas vezes) grosseira e absurdamente ocupada, que solta um désolé a cada duas frases?

Pois é, cá estou eu com esse sentimento de nostalgia por tudo o que já passei nessa minha estadia francesa e saudosa ao me dar conta que em poucos dias não estarei mais aqui. E quem sabe, nunca mais voltarei a esse lugar! Não mais sentirei o vento Mistral na cara, não mais terei o sol do Mediterrâneo para me pintar nas belíssimas praias que circundam a região. Não mais descobrirei caminhos novos e lugares próximos (baratos) e lindos para visitar. Não mais ouvirei francês nas ruas. Não mais terei vizinhos franceses, árabes, espanhóis, italianos, africanos, chineses, entre tantos outros.

É, acho que não só me acostumei com a rabugice francesa, como importei um pouco dela a minha vida. Me acostumei a comprar baguette na boulangerie ou no mercado mesmo e sair com ela debaixo do braço. Estou assoando o nariz à la Francesa, com muito barulho (sem nojinho). Me divirto em ficar na dúvida na prateleira dos vinhos, queijos e iogurtes, com tamanha variedade, por um preço bem pequeno.

É França, foram dois anos de caminhada. Dois anos que deixaram marcas profundas e inalteráveis dentro de mim. Definitivamente, chegando ao fim desse percurso, tenho a certeza de que não sou a mesma menina que saiu do Brasil, mais precisamente de Caxias do Sul, em 2012.

Sinto que cresci, amadureci muito profissional e pessoalmente. Não me apavoro mais com problemas que me paralisavam nesse meu passado recente. Aprendi que se eu não correr atrás das minhas coisas, dos meus objetivos e vontades, ninguém fará isso por mim. Aprendi a lutar pelo que eu quero e me permitir sentir orgulho das minhas próprias conquistas, sem falsa modéstia. Todo o sofrimento que passei (pq sofri tipo “Maria do Bairro” nesse lugar), serviu para me forjar um ser humano melhor. Por isso sou grata à França, que me ensinou o seu jeito de ver e perceber o mundo. E a partir daí, descobri que não existe só uma forma de enxergar as coisas, e que fora daí (do Brasil) existem coisas maravilhosas para se descobrir.

Agora entendo quando diziam que quem faz intercâmbio uma vez nunca mais vai se sentir inteiro em um lugar só. Vai estar sempre faltando um pedacinho. Essa é a grande ironia dessa aventura toda. Sei que quando chegar ao Brasil é vida que segue, mas a França nunca mais sairá do meu peito. La Garde vai ser sempre o meu segundo lar, o quintal da minha casa, afinal, La Garde é logo ali, posso sentir…

 

PS.: Lembram quando eu dizia: “Nunca vou sentir saudade daqui. Isso é ridículo. Podem me internar se isso acontecer”. É gente, reserva lugar no manicômio que acho que enlouqueci!!

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Sonho, enigma nosso de cada noite

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Eu era uma pessoa sem sonhos. Sim, eram muito raros e enigmáticos os meus sonhos. Me dava ao luxo de ter uns quatro por ano, e só. No começo me assustava. Pensava com meus botões, como pode alguém não sonhar? Dormir uma noite inteira e ao acordar não se lembrar de ter tido um momento sequer de fantasia, de ficção? Nem um pequeno flash de lembrança? É, realmente terrificante. Depois me acostumei, me acostumei a ser uma mulher sem sonhos.

Tudo bem, eu pensava. Não sonho dormindo, mas compenso sonhando acordada. Sempre tive a mania de sonhar acordada. Talvez por isso seja privada de sonhos noturnos. Gasto toda a minha cota de sonhos durante o dia e à noite minha cabeça se esvazia por completo. Pode ser, pode ser, imaginava.

Sentia uma inveja infantil ao ouvir as pessoas contarem seus sonhos loucos e absurdos; de gente que escreve textos e livros inteiros inspirado em sonhos, com enredos impressionantes (Frankestein é um baita exemplo – pesadelo maravilhoso de Mary Shelley). O filme “O Exterminador do Futuro”, também foi concebido a partir de um pesadelo. Mesmo invenções, descobertas científicas, como a tabela periódica e a estrutura do código genético, só foram possíveis através de sonhos reveladores. Como esquecer a maçã que acordou Isaac Newton de seu sonho e o fez decifrar a teoria da gravidade (verdade ou mito, pouco importa).

Sempre adorei livrinhos de sonhos. Lembro que meu pai tinha uns três (que ainda estão lá em casa), hoje velhos e mofados, mas que guardam em si as lembranças do meu velho, e por isso, todos os sonhos do mundo. Quando criança ficava tão feliz ao sonhar, que corria para o colo do meu pai, que com o livrinho do significado dos sonhos, era o único que conseguia decifrá-los. Ficávamos horas rindo e “descobrindo” os diversos significados intrínsecos nos meus (raros) sonhos de menina. Claro que escolhíamos sempre o mais alegre, o que trazia coisas boas. Sai pra lá mau agouro!

Mas o mais fascinante é que depois de desembarcar em território francês meus sonhos perdidos voltaram a me embalar. Como mágica, quase todas as manhãs, acordo com um enredo do que foi a minha noite na cabeça. E não raro, acordo mesmo assustada, com ações realmente absurdas, que todo o bom sonho deve conter. Por ironia do destino talvez, foi a França que devolveu meus sonhos! A França que me permitiu voltar a sonhar! E que continue assim, estou adorando ser uma mulher de sonhos.

Merci beaucoup, France!

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Funk Ostentação X discrição francesa

E na época em que o Brasil foi tomado pelo movimento saído da baixada santista, denominado Funk Ostentação, me encontro em outra porção do oceano, onde a discrição é fato consumado. Diferentemente do que entoam as letras desse novo gênero musical brasileiro, onde ter é mais importante do que ser; onde ostentar virou lei, virou certo, virou obrigação, a França me ensinou exatamente o oposto.

Inacreditavelmente, no país famoso pela moda, elegância e marcas famosas, aprendi o desapego. Aprendi a ser mais simples. Aprendi a dosar, aprendi a escolher, aprendi que não preciso de muito para viver e ser feliz. Aprendi, aliás, que a felicidade não está diretamente ligada aos cifrões da conta bancária, ou às roupas de marca que você desfila.

Claro, não serei hipócrita a ponto de dizer que o dinheiro não importa. Calma gente, não vou virar hippie, peregrina ou entrar para uma nova seita. O dinheiro traz sim um conforto que é muito importante, nos deixa mais tranquilos e leves para seguir a vida. Com dinheiro já teria viajado muito mais pela Europa, conhecido muito mais gente e engolido muito menos sapo. Mas o que quero dizer é que o dinheiro não é a essência da felicidade, o dinheiro por si só não pode fazer nada.

Na França, ao contrário do que acontece no Brasil, os ricos andam de ônibus, de trem, de metrô; eles estão na mesma fila de hospital que eu; eles vestem as mesmas roupas. Claro que as condições aqui são muito mais igualitárias do que as que estamos acostumados por aí. E é essa estrutura, atrás de serviços simples que o governo proporciona, que faz toda a diferença. Aqui seria bizarro uma matéria jornalística apresentando um prefeito, ou qualquer detentor de alto cargo utilizando serviços públicos. Seria bizarro simplesmente porque é a coisa mais normal do mundo.

Isso me chateia um pouco. Essa desigualdade toda que vivemos no Brasil é triste, é alimentada há anos, e não vejo perspectiva de mudança em um curto espaço de tempo. Não há mudança sem esforço, e não consigo ver esse ânimo, essa coragem, esse empenho para mudar. Por esse, e só por esse motivo, o sonho de ostentar que tem o pobre, o morador da favela, é perfeitamente compreensível. Em um país onde a população está cansada de tanta diferença social, nada mais natural. Nada mais natural do que matar o outro por um tênis, por uma corrente de ouro, por um automóvel. Nada mais natural.

O Brasil é muito bem visto por aqui. Já ouvi de professores que o nosso país é o lugar do futuro. Fico na torcida para que consigamos aproveitar essa boa fase, onde somos uma aposta internacional, para realmente transformar esse lugar que eu amo, esse que é o meu lugar, em um país melhor. Que esse futuro prometido esteja mais próximo do que possamos imaginar.

Mas enquanto o futuro não chega, movimentos como o Funk Ostentação – mais do que simplesmente críticas, ofensas e deboches – merecem uma reflexão para tentarmos entender como funciona a difícil engrenagem da sociedade em que vivemos e consigamos idealizar, projetar, e construir, tijolo por tijolo, a sociedade que queremos.

Ps.: Para ilustrar melhor esse movimento, deixo um filme realizado esse ano, que explica a origem do Funk Ostentação e ajuda a dimensionar o sucesso que ele conseguiu atingir (em diferentes classes sociais, diga-se de passagem), em muito pouco tempo. Viva o Brasil, viva a multiplicidade cultural!! Antes de criticar e desferir todo o seu preconceito, melhor dar uma olhadinha…
http://www.youtube.com/watch?v=XQOemtven7E

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Brasileiro, um povo machista

Dizem que precisamos sair para perceber algumas coisas que acontecem na nossa sociedade. Para nos darmos conta de alguns costumes enraizados, precisamos de um distanciamento. Morando na França por quase um ano, percebi o quanto o brasileiro é machista e bitolado. O quanto eu mesma sou (estou tentando mudar) machista também.

Conversando com as pessoas na França e mesmo observando a rotina dos franceses, percebo, através de coisas simples, que na terra de Simone de Beauvoir não existe serviço de homem e de mulher. Em casa eles não só ajudam como tomam a dianteira das atividades do lar, sem problemas.

Consegui vivenciar isso bem de perto quando passei alguns dias na casa de uma família em Lyon. O homem, macho alfa, espécime masculina, era quem fazia a quase totalidade dos serviços domésticos. Lembro que achei aquilo fantástico.

Foi ele quem lavou a louça toda da janta e ainda serviu chá com biscoito para a esposa, que repousava tranquilamente no sofá. O melhor de tudo é perceber que esse é um comportamento natural naquelas terras, nascido graças à educação recebida em casa. Os meninos fazem o serviço doméstico normalmente. Não é algo que fica restrito às meninas, como acontece, muitas vezes, no Brasil.

Em outra oportunidade, durante uma confraternização que aconteceu depois de uma apresentação de coral, impressionantemente quem varreu o salão no final do evento foi um homem. E não era novinho não, devia ter lá seus 60 anos. Fiquei revirando a minha memória para vasculhar uma cena semelhante em uma festa lá pelas minhas bandas, no sul do Brasil. Não lembro de nada parecido!

Não lembro porque não aconteceu. Nunca. Nunca um homem empunhou uma vassoura para fazer uma boa faxina. Ainda mais depois de uma festa e com mulheres presentes. Infelizmente o serviço sobra sempre para elas.

Pude perceber meu pensamento machista porque, ao olhar as duas cenas, fiquei com pena do homem e pensando: “mas que mulheres relaxadas. Porque deixam tudo para o coitado do homem?”. Imediatamente me dei conta do que estava fazendo e espantei esse pensamento para longe. Os homens têm sim que fazer tudo de forma igualitária. Vamos lá macharedo, empunhem suas vassouras!

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O que a França me ensinou

Aterrissei em Paris em setembro de 2012 pensando que aquele era o início de um sonho. Logo de cara a França me deu um dos maiores ensinamentos que eu poderia ter recebido. Ensinou-me de antemão que a vida não é um sonho, e que eu estava desembarcando, na verdade, para a experiência mais real dos meus dias.

Depois de socar alguns muros, bater com a cabeça nas paredes e espernear um pouco, percebi que a realidade é mais dura do que poderia imaginar. Percebi que a vida é um jogo que se joga sozinho. Você é responsável por avançar as casas, passar de fase e chegar ao final com o sentimento de missão cumprida. Você e só você é capaz de chegar lá. Ninguém fará isso por você e nem te ajudará no caminho. Vai por mim, cada um está preocupado em achar seu próprio caminho!

A França me ensinou que se eu não sair de casa para comprar comida, simplesmente vou ficar sem comer. Se eu não arrumar meu quarto, terei que conviver com a bagunça. Se não lavar minhas roupas vou virar francesa (ou quase). Enfim, aprendi que o mundo gira, e vai continuar girando sempre, independente do que eu queira ou necessite. A França me ensinou o tamanho da minha insignificância.

Por aqui, aprendi a valorizar quem está longe agora e estava tão perto antes; sem esquecer de apreciar os que estão por perto agora, gente que eu nem conhecia antes. Aprendi que a união também faz a força e ajuda a espantar a solidão. Afinal, estamos todos no mesmo barco por aqui. Aprendi que fazer amigos é muito fácil. O difícil é fazer com que essa amizade perdure.

Em um país que se relaciona de forma tão diferente com o mundo do que nós brasileiros, aprendi a conjugar o verbo tolerar. Aprendi a ouvir muitos “désolés” e “c’est pas mon problème” (não é problema meu) – dar um sorriso e agradecer o préstimo. Aprendi a reclamar, a lutar por meus direitos. Aprendi a não me conformar, a não aceitar uma opinião, uma nota ou o que quer que seja (sim caros amigos – acreditem ou não – consegui me tornar ainda mais rabugenta).

Aprendi a conviver com um povo que está acostumado a seguir um roteiro meticulosamente planejado. Um povo calculista e sem calor humano. Um povo que simplesmente não sabe o que significa plano B. E se por um acaso o plano A falhar, fica sem chão. Um povo que está aprendendo a conviver com a crise, com a recessão, com a falta de estrutura – a falta de certeza no amanhã.

Por aqui aprendi a cumprir agendas e horários. Aprendi que as normas de execução de um trabalho francês são, muitas vezes, mais importantes que o próprio conteúdo do trabalho. Aprendi que nenhum trabalho pode ser realizado sem planejamento. Oh palavrinha que me persegue. Fugia dela com louvor no Brasil. Aqui, porém, ela conseguiu me alcançar – para o bem e para o mal.

Aprendi a viver em um país muito mal acostumado. Um país onde muitos estabelecimentos públicos não abrem na segunda-feira. Trabalham das 9h às 12h e das 14h às 16h de terça à quinta – porque na sexta o expediente é menor. Afinal, é sexta-feira neh!

O velho mundo também me ensinou que devo comer melhor, me exercitar e cuidar bem do meu corpo. Me ensinou até a usar creminhos anti-idade! O país do croissant me ensinou a ser mais responsável e independente. Me ensinou a olhar para dentro de mim, a me conhecer e conviver comigo mesma.

Viver na França me transformou em uma brasileira orgulhosa de sua origem. Uma brasileira que ama o seu país, o seu estado, os seus costumes. Não adianta, trouxe no sangue esse amor pela minha pátria, pelo meu pago.

A Europa também me ensinou que não vou e nem posso mudar a cultura, o pensamento por aqui. O que devo fazer, e acho bem saudável, é observar as diferenças, procurar entendê-las e, na medida do possível, me adaptar a elas. Afinal, a forasteira sou eu!

 

Não importa a sua origem. Viaje, aventure-se, viva em sua plenitude! Garanto-lhe que não sairá ileso!

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Dois países, duas realidades

Imagine uma pessoa qualquer, que ao entrar no mercado, não consegue distinguir, ou entender os rótulos dos produtos. Imagine, ao pegar um ônibus, alguém que precisa de ajuda para compreender qual é o seu destino. Imagine uma criatura que não consegue assimilar uma notícia que acabou de ler no jornal ou ouvir no rádio. Não, não estou falando de analfabetos, mas daquele sujeito que, reconhece as letras e consegue juntar as palavras, mas não entende seu sentido em uma frase e não é capaz de compreendê-la.

Assim é a vida de 68% de brasileiros entre 15 e 64 anos, considerados analfabetos funcionais. Esses são dados da Declaração Mundial sobre Educação para Todos. Ainda de acordo com essa declaração, apenas 1 entre 4 brasileiros consegue ler e escrever e utilizar essas habilidades para o exercício de aprendizado.

Um dado alarmante. Sem dúvida, o caminho para uma solução passa pela educação, passa pela leitura. E é aí que eu quero chegar. A leitura é um hábito que deve iniciar na infância e perseguir o indivíduo por toda a sua vida. Falta de tempo ou dinheiro não podem ser barreiras para esse hábito tão fascinante.

Em países europeus, é comum encontrarmos pessoas, muitas pessoas com livros nas mãos em ônibus e metrôs. Aliás, não carregar livros por lá, é indicativo de que és um turista en passant pela Europa. Enquanto no Brasil, a média de leitura anual é de 4,7 (contanto livros didáticos, de leitura obrigatória), em países como a França, esse número sobe para 11 e na Suécia 15 (dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pelo Instituto Pró-Livro).

Me deparei com uma cena no mínimo inusitada andando pelas ruas de Paris. Um mendigo dormia tranquilamente no banco de uma praça parisiense sendo escorado por Honoré de Balzac, Jean-Paul Satre e Gustave Flaubert. Ele estava simplesmente rodeado por livros, dormindo o sono dos justos. Confesso que invejei sua biblioteca particular e imediatamente pensei no Brasil, onde uma cena como essas só poderia ser vista no cinema.

Um país não cresce plenamente sem educação de qualidade e sem ávidos leitores. Pode começar por rótulos de xampu e bulas de remédios, o importante é não perder o hábito e disseminar o vírus da leitura e da vontade de crescer e evoluir como ser humano, em toda a sua complexidade. Só forjaremos um país melhor, com indivíduos melhores quando todos se derem conta disso.

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Sinto falta do meu aconchego!

Cada vez que vou ao mercado procurando por itens como creme dental, sabonete, desodorante e shampoo me sinto um pouco mais distante de casa. A cada item desses, adquirido no mercado francês, percorro milhas na direção contrária ao meu pago.

Vim para a França com todos esses itens comprados no Brasil. Agora, não resta mais nenhum deles. Nos frascos que se amontoam em meu armário do banheiro, nenhum rótulo conhecido, nenhuma cifra em reais, nenhuma referência do lugar de onde vim.

Quando os produtos terminam, não me encorajo à colocá-los no lixo. Crio um apego tão grande com eles, que não tenho coragem de me desfazer deles depois. Eles me são tão íntimos que já os considero pedaços de mim, carne da minha carne, sangue do meu sangue.

Sinto falta de cheiros e gostos que me eram caros antes de chegar aqui. Sinto falta de sofá, de congelador, de televisão. Sinto falta de churrasco, de polenta, de pastel. Sinto falta de risadas, de calor, de confusão.

Quero voltar, mas sei que não posso e não vou fazer isso antes de terminar o que vim buscar aqui. Quero gritar, mas não acho uma boa ideia, visto que o sanatório da cidade fica a poucos quarteirões do meu alojamento. Quero chorar, mas não me acho digna de minhas lágrimas.

Na verdade não sei o que sou, não sei o que quero. Sou brasileira, sou francesa, não sou nada e nem ninguém. Sou uma viajante, de mochila nas costas e sonhos na cabeça.

Preciso seguir em frente, preciso andar, preciso correr, preciso voar. Ah, e preciso ir ao mercado para comprar creme dental, sabonete, desodorante e shampoo.

PS.: acho que essa música tem tudo a ver com meu momento melodramático…

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Um fantasma chamado burocracia

        Em um post anterior havia dito que a burocracia na França beirava o ridículo. Mudei de ideia. A burocracia francesa há muito já ultrapassou o limite do ridículo!

        Coitado do Max Weber. Tenho certeza que quando ele teorizou sobre a burocracia, não imaginou que a coisa fosse se estagnar e não evoluiria nem um milímetro no sentido de ajudar o cidadão. O que ele idealizou como modelo de organização racional se transformou em sinônimo de excesso de normas e regulamentos, desperdício de recursos e ineficiência.

        E posso garantir que na França a burocracia alcança um patamar muito mais patético. Depois o Brasil é que é terceiro mundo. Juro que não entendo!   Já passei por diversas situações em que o excesso de burocracia me impediu, ou atrasou em muito minha vida por aqui. Mas essa semana foi a gota d’água.

        Já havia observado que na França, ao contrário do que estamos acostumados no Brasil, o cliente nunca tem razão. Pois então, aconteceu o lógico (na mentalidade francesa, claro). Enviei meus documentos para ser reembolsada pelo sistema de saúde por uma consulta médica que me submeti por aqui no início de janeiro. Fiquei super feliz em saber que teria esse reembolso. Porém, um mês depois, recebo uma carta do pessoal do sistema de saúde dizendo que estavam faltando documentos.

        Apavorada que só eu, larguei tudo e fui correndo ver o que era. Quase mandei a francesinha à merda quando descobri que o problema era que os funcionários haviam perdido meus documentos. Simples assim! E aí entra a lógica francesa. Quem tem que correr atrás para consertar uma cagada que não é minha? Eu, é claro, que sou a cliente, e que não faz nada da vida…só pode ser esse o pensamento.

        Fudida da cara, tive que pagar novamente o valor do exame. Agora eles vão analisar o que vão fazer. Talvez, quando eu tiver uns 50 anos, o dinheiro que me deveria ser reembolsado caia na minha conta. Vamos torcer! Vive la France!

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Cinco meses longe da alegria tupiniquim!

Paula, a paulistinha preferida! Amizade que levarei para sempre!

Paula, a paulistinha preferida! Amizade que não termina aqui!

Estou em Toulon há exatos cinco meses. Às vezes esse tempo parece uma eternidade, às vezes parece que foi ontem. Ainda não sei se gosto daqui, se me acostumei com o estilo de vida e com as pessoas. O que sei é que a distância da minha terra e do meu lar só fez aumentar meus laços, meu sentimento de pertença àquele lugar.

Mas, posso dizer que nesses cinco meses também consegui fazer boas amizades e viver algumas aventuras e sensações até então inéditas. Tenho certeza de que se não tivesse embarcado nesse sonho, na terra do Petit Prince, nunca teria vivenciado.

Cinco meses realmente é bastante tempo. Período suficiente para se apaixonar e desgostar, para iniciar uma amizade e terminar, para fazer um filho e abortar, para uma criança começar a andar, uma empresa abrir e falir, uma flor brotar e murchar, enfim, um período de descobertas e perdas.

Estou feliz por ter superado alguns medos pessoais, mas triste por ainda não ter me livrado de outros tantos. Se eu conseguir exorcizar alguns fantasmas que me assombram todas as noites já me sentirei vitoriosa.

O que posso dizer é que aos poucos as coisas estão se ajeitando. Logo que cheguei, acreditava ser uma pessoa muito aberta e receptiva, pensava que esse tal de choque cultural não existisse, fosse uma invenção de gente medrosa. Pois me enganei. Muitas coisas na França me incomodam. Para algumas delas, simplesmente ligo o foda-se e sigo adiante, outras me paralisam por completo.

Nesse tempo aprendi a estar sozinha. Aprendi a sentir-me sozinha mesmo rodeada de gente. Isso ainda me assusta um pouco. Pensar em tudo. Escrever e me comunicar em outra língua com pessoas sem muita paciência e tempo a perder, tudo isso faz parte do pacote.

Ter que dar um sorriso amarelo quando as pessoas (ignorantes) não acreditam que sou brasileira, porque eu não sou negra. Ouvir coisas do tipo: “Mas achei que no Brasil eram todos negros!”, ou “Tu sabes qual é o final da novela Caminho das Índias?”; sim, essa porcaria chegou até aqui. Ou então: “Eu conheço uma música brasileira ‘créu, créu’”, ou “É verdade que no Brasil só tem floresta e todos andam pelados?” e a clássica: “A capital do Brasil é o Rio de Janeiro, né?”. Sem contar a que tive que escutar do meu professor de mestrado: “Ah tu és brasileira? Então tu falas espanhol”. É, meus amigos, a ignorância é mesmo uma bênção.

Mas como eu ia dizendo, as coisas estão se ajeitando…

Turma alegre!! Parceria para todas as horas...para sempre no meu coração!

Turma alegre!! Parceria para todas as horas…para sempre no meu coração!

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