Orgulho pintado de verde e amarelo!

Brasil, meu Brasil brasileiro...

Brasil, meu Brasil brasileiro…

Relógio, objeto inanimado, que conta as horas. Faz o tempo passar. Por vezes se arrastando como um condenado no corredor da morte; por outras a passos largos, rápido e devastador como um terremoto no Japão.

Objeto inanimado? Eu diria que é quase um ser humano. Com vida e sentimentos próprios, que adora contrariar os meus desejos. E por isso que ainda que sob uma enxurrada de críticas, sigo no fluxo contrário.

As pessoas não entendem (ou não querem entender) que os relógios do meu computador e do meu celular são como um cordão umbilical. É a minha representação de Edvard Munch no famoso “O Grito” – é o meu grito. Tão meu, tão singelo, tão particular. O único elo que restou.

Minhas horas por aqui seguem as batidas do meu coração! E o meu coração é muito verde e amarelo, sim senhor! Portanto, o ritmo da minha vida segue sendo ditado pelo horário do Brasil.

Vivo aqui, mas sempre com um pezinho por lá, lembrando de onde eu vim e para onde eu vou voltar, feliz. Meu lugar não é aqui na França. Estou aqui de passagem e meu relógio serve para me mostrar isso todas as horas, todos os minutos, todos os segundos. Vivo fazendo cálculos para saber que horas são por aqui, mas não me arrependo. Foi assim que aprendi a viver, dando valor às minhas origens, às pessoas que eu amo e que realmente se importam comigo.

Em uma incursão recente pelo facebook, dei de cara com o documentário intitulado “Orgulho de ser brasileiro”, dirigido e produzido pelo jornalista Adalberto Piotto, que questiona: “Você tem orgulho de ser brasileiro?”. Através de entrevistas com personalidades como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o treinador de futebol Carlos Alberto Parreira, a ex-senadora Marina Silva, o artista plástico Romero de Brito entre outros tantos, o filme é um ótimo convite para questionarmos os problemas e as qualidades do Brasil.

Eu nem preciso dizer que, mesmo sem negligenciar as diversas dificuldades que o meu país enfrenta, tenho um orgulho imenso de ter nascido brasileira. Meu ritmo é esse. Quem quiser, que ajuste seu relógio e me acompanhe. Quem não quiser, désolé!

 

P.S 1 Deixo o link do site oficial do filme, com o trailer: http://orgulhodoc.com.br/

P.S 2 Parem de insistir!! Não vou mudar o horário do Brasil dos meus relógios! Muito obrigado pela compreensão!

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Que Deus nos perdoe!

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Antes de começar esse texto, preciso deixar claro que fui criada sob os dogmas do catolicismo, frequentando a missa e fazendo todos os sacramentos (batismo, primeira comunhão e crisma). Confesso que conforme fui crescendo, descobrindo a história da igreja e alguns autores, fiquei um pouco revoltada, deixando de ser católica praticante.

Um acontecimento recente, em uma igreja celebre de Caxias do Sul me deixou extremamente chocada com o pensamento totalmente mesquinho, anacrônico e retrógrado que algumas pessoas que frequentam esse meio ainda conservam. É uma pena colocar o status e a pose (tão comuns na sociedade caxiense) à frente da fé e das crenças de alguns, fazendo repensar se é realmente essa a mensagem que a igreja quer transmitir, se é esse o tipo de fiel que ela quer para si.

Já faz algum tempo que a cerimônia da primeira comunhão, mais do que um sacramento, se transformou em um desfile de modas, uma verdadeira competição de vaidades; uma corrida para medir quem tem mais poder, mais condição, mais posses. Mas a situação ultrapassou todos os limites.

Uma pessoa de trato, trejeitos e maneira simples, muito ligada à igreja, sempre pronta a ajudar, sofreu uma situação de preconceito, de rebaixamento, de humilhação mesmo! Atitudes que convenhamos, não tem muito relacionamento com os ensinamentos cristãos (pelo menos na teoria neh, não sejamos hipócritas).

Essa senhora passou o dia inteiro ornamentando a igreja e ajudando na preparação da liturgia, enquanto as catequistas se aprontavam para o grande evento. A preparação delas não foi espiritual não, elas gastavam suas horas no salão de beleza. Quando chegaram (quase na hora da cerimônia), encontraram essa senhora vestida de forma simples, correndo de um lado para o outro na tentativa de ajustar todos os detalhes, para que tudo saísse perfeito.

Nada disso importou. O que chamou a atenção das outras catequistas, no alto da sua empáfia, foi a roupa daquela senhora. Elas cochichavam como podiam ter deixado aquilo acontecer? Como podiam conceber uma senhora vestida daquela maneira para a primeira comunhão? E se os pais, e se as crianças vissem aquilo, o que iriam falar? Como iriam reagir?

Assim como na história da Cinderela, a senhora que conhecia muito bem as outras, já prevendo o que poderia acontecer, aportou consigo um vestido que trocaria para a hora da cerimônia. Porém já não adiantava mais, o estrago já estava feito. Aquelas criaturas de línguas afiadas, tão pobres que só tem dinheiro (algumas delas nem isso, é só pose mesmo), já tinham conseguido desestabilizar emocionalmente aquela senhora. Conseguiram fazer com que ela se sentisse tão pequena e insignificante quanto a barata do livro do Franz Kafka.

Me pergunto se é esse o verdadeiro espírito cristão, se é essa a preocupação da igreja hoje, se é esse tipo de preconceito que ela quer reproduzir. São perguntas retóricas, que servem para que cada um reflita o seu comportamento perante o outro. Independente da religião escolhida, importante lembrar que somos todos seres humanos, e merecemos ser tratados como tal.

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Funk Ostentação X discrição francesa

E na época em que o Brasil foi tomado pelo movimento saído da baixada santista, denominado Funk Ostentação, me encontro em outra porção do oceano, onde a discrição é fato consumado. Diferentemente do que entoam as letras desse novo gênero musical brasileiro, onde ter é mais importante do que ser; onde ostentar virou lei, virou certo, virou obrigação, a França me ensinou exatamente o oposto.

Inacreditavelmente, no país famoso pela moda, elegância e marcas famosas, aprendi o desapego. Aprendi a ser mais simples. Aprendi a dosar, aprendi a escolher, aprendi que não preciso de muito para viver e ser feliz. Aprendi, aliás, que a felicidade não está diretamente ligada aos cifrões da conta bancária, ou às roupas de marca que você desfila.

Claro, não serei hipócrita a ponto de dizer que o dinheiro não importa. Calma gente, não vou virar hippie, peregrina ou entrar para uma nova seita. O dinheiro traz sim um conforto que é muito importante, nos deixa mais tranquilos e leves para seguir a vida. Com dinheiro já teria viajado muito mais pela Europa, conhecido muito mais gente e engolido muito menos sapo. Mas o que quero dizer é que o dinheiro não é a essência da felicidade, o dinheiro por si só não pode fazer nada.

Na França, ao contrário do que acontece no Brasil, os ricos andam de ônibus, de trem, de metrô; eles estão na mesma fila de hospital que eu; eles vestem as mesmas roupas. Claro que as condições aqui são muito mais igualitárias do que as que estamos acostumados por aí. E é essa estrutura, atrás de serviços simples que o governo proporciona, que faz toda a diferença. Aqui seria bizarro uma matéria jornalística apresentando um prefeito, ou qualquer detentor de alto cargo utilizando serviços públicos. Seria bizarro simplesmente porque é a coisa mais normal do mundo.

Isso me chateia um pouco. Essa desigualdade toda que vivemos no Brasil é triste, é alimentada há anos, e não vejo perspectiva de mudança em um curto espaço de tempo. Não há mudança sem esforço, e não consigo ver esse ânimo, essa coragem, esse empenho para mudar. Por esse, e só por esse motivo, o sonho de ostentar que tem o pobre, o morador da favela, é perfeitamente compreensível. Em um país onde a população está cansada de tanta diferença social, nada mais natural. Nada mais natural do que matar o outro por um tênis, por uma corrente de ouro, por um automóvel. Nada mais natural.

O Brasil é muito bem visto por aqui. Já ouvi de professores que o nosso país é o lugar do futuro. Fico na torcida para que consigamos aproveitar essa boa fase, onde somos uma aposta internacional, para realmente transformar esse lugar que eu amo, esse que é o meu lugar, em um país melhor. Que esse futuro prometido esteja mais próximo do que possamos imaginar.

Mas enquanto o futuro não chega, movimentos como o Funk Ostentação – mais do que simplesmente críticas, ofensas e deboches – merecem uma reflexão para tentarmos entender como funciona a difícil engrenagem da sociedade em que vivemos e consigamos idealizar, projetar, e construir, tijolo por tijolo, a sociedade que queremos.

Ps.: Para ilustrar melhor esse movimento, deixo um filme realizado esse ano, que explica a origem do Funk Ostentação e ajuda a dimensionar o sucesso que ele conseguiu atingir (em diferentes classes sociais, diga-se de passagem), em muito pouco tempo. Viva o Brasil, viva a multiplicidade cultural!! Antes de criticar e desferir todo o seu preconceito, melhor dar uma olhadinha…
http://www.youtube.com/watch?v=XQOemtven7E

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Em busca do meu sonho francês – parte II

Et voilà...

Et voilà…

E essa minha volta para a França começa com um total sentimento de déjà vu. A impressão que tenho é de que esse lugar permanece igual, imutável, inalterável. Eu fiz tanta coisa, eu vi tanta gente, eu vivi tanto nesses dois meses e meio de Brasil; e La Garde continua rigorosamente a mesma.

Voltei para o mesmo quarto na residência universitária. Voltei para o mesmo G-610. A mesma porta emperrada, a mesma geladeira que não gela, cheia de adesivos esquisitos, o mesmo ralo entupido do banheiro, a mesma pia com a torneira invertida (do azul sai água quente; do vermelho água fria), os mesmos pássaros gigantes fazendo o mesmo ruído, a mesma vista para as árvores, as mesmas marcas no chão e ranhuras nas paredes.

 

Está tudo do jeitinho que eu deixei.

Mas alguma coisa mudou. Espera, quem mudou fui eu!

 

O mundo continua a ser essa coisinha redonda que marcha sempre no mesmo ritmo, entoando a mesma canção, seguindo a mesma direção. Ainda bem que eu mudei! Mudei para aproveitar melhor a vida, mudei para cantar outra música, dançar outra dança. Mudei para vir buscar o que deixei para trás. Mudei para perseguir meu sonho francês!

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Brasileiro, um povo machista

Dizem que precisamos sair para perceber algumas coisas que acontecem na nossa sociedade. Para nos darmos conta de alguns costumes enraizados, precisamos de um distanciamento. Morando na França por quase um ano, percebi o quanto o brasileiro é machista e bitolado. O quanto eu mesma sou (estou tentando mudar) machista também.

Conversando com as pessoas na França e mesmo observando a rotina dos franceses, percebo, através de coisas simples, que na terra de Simone de Beauvoir não existe serviço de homem e de mulher. Em casa eles não só ajudam como tomam a dianteira das atividades do lar, sem problemas.

Consegui vivenciar isso bem de perto quando passei alguns dias na casa de uma família em Lyon. O homem, macho alfa, espécime masculina, era quem fazia a quase totalidade dos serviços domésticos. Lembro que achei aquilo fantástico.

Foi ele quem lavou a louça toda da janta e ainda serviu chá com biscoito para a esposa, que repousava tranquilamente no sofá. O melhor de tudo é perceber que esse é um comportamento natural naquelas terras, nascido graças à educação recebida em casa. Os meninos fazem o serviço doméstico normalmente. Não é algo que fica restrito às meninas, como acontece, muitas vezes, no Brasil.

Em outra oportunidade, durante uma confraternização que aconteceu depois de uma apresentação de coral, impressionantemente quem varreu o salão no final do evento foi um homem. E não era novinho não, devia ter lá seus 60 anos. Fiquei revirando a minha memória para vasculhar uma cena semelhante em uma festa lá pelas minhas bandas, no sul do Brasil. Não lembro de nada parecido!

Não lembro porque não aconteceu. Nunca. Nunca um homem empunhou uma vassoura para fazer uma boa faxina. Ainda mais depois de uma festa e com mulheres presentes. Infelizmente o serviço sobra sempre para elas.

Pude perceber meu pensamento machista porque, ao olhar as duas cenas, fiquei com pena do homem e pensando: “mas que mulheres relaxadas. Porque deixam tudo para o coitado do homem?”. Imediatamente me dei conta do que estava fazendo e espantei esse pensamento para longe. Os homens têm sim que fazer tudo de forma igualitária. Vamos lá macharedo, empunhem suas vassouras!

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O que a França me ensinou

Aterrissei em Paris em setembro de 2012 pensando que aquele era o início de um sonho. Logo de cara a França me deu um dos maiores ensinamentos que eu poderia ter recebido. Ensinou-me de antemão que a vida não é um sonho, e que eu estava desembarcando, na verdade, para a experiência mais real dos meus dias.

Depois de socar alguns muros, bater com a cabeça nas paredes e espernear um pouco, percebi que a realidade é mais dura do que poderia imaginar. Percebi que a vida é um jogo que se joga sozinho. Você é responsável por avançar as casas, passar de fase e chegar ao final com o sentimento de missão cumprida. Você e só você é capaz de chegar lá. Ninguém fará isso por você e nem te ajudará no caminho. Vai por mim, cada um está preocupado em achar seu próprio caminho!

A França me ensinou que se eu não sair de casa para comprar comida, simplesmente vou ficar sem comer. Se eu não arrumar meu quarto, terei que conviver com a bagunça. Se não lavar minhas roupas vou virar francesa (ou quase). Enfim, aprendi que o mundo gira, e vai continuar girando sempre, independente do que eu queira ou necessite. A França me ensinou o tamanho da minha insignificância.

Por aqui, aprendi a valorizar quem está longe agora e estava tão perto antes; sem esquecer de apreciar os que estão por perto agora, gente que eu nem conhecia antes. Aprendi que a união também faz a força e ajuda a espantar a solidão. Afinal, estamos todos no mesmo barco por aqui. Aprendi que fazer amigos é muito fácil. O difícil é fazer com que essa amizade perdure.

Em um país que se relaciona de forma tão diferente com o mundo do que nós brasileiros, aprendi a conjugar o verbo tolerar. Aprendi a ouvir muitos “désolés” e “c’est pas mon problème” (não é problema meu) – dar um sorriso e agradecer o préstimo. Aprendi a reclamar, a lutar por meus direitos. Aprendi a não me conformar, a não aceitar uma opinião, uma nota ou o que quer que seja (sim caros amigos – acreditem ou não – consegui me tornar ainda mais rabugenta).

Aprendi a conviver com um povo que está acostumado a seguir um roteiro meticulosamente planejado. Um povo calculista e sem calor humano. Um povo que simplesmente não sabe o que significa plano B. E se por um acaso o plano A falhar, fica sem chão. Um povo que está aprendendo a conviver com a crise, com a recessão, com a falta de estrutura – a falta de certeza no amanhã.

Por aqui aprendi a cumprir agendas e horários. Aprendi que as normas de execução de um trabalho francês são, muitas vezes, mais importantes que o próprio conteúdo do trabalho. Aprendi que nenhum trabalho pode ser realizado sem planejamento. Oh palavrinha que me persegue. Fugia dela com louvor no Brasil. Aqui, porém, ela conseguiu me alcançar – para o bem e para o mal.

Aprendi a viver em um país muito mal acostumado. Um país onde muitos estabelecimentos públicos não abrem na segunda-feira. Trabalham das 9h às 12h e das 14h às 16h de terça à quinta – porque na sexta o expediente é menor. Afinal, é sexta-feira neh!

O velho mundo também me ensinou que devo comer melhor, me exercitar e cuidar bem do meu corpo. Me ensinou até a usar creminhos anti-idade! O país do croissant me ensinou a ser mais responsável e independente. Me ensinou a olhar para dentro de mim, a me conhecer e conviver comigo mesma.

Viver na França me transformou em uma brasileira orgulhosa de sua origem. Uma brasileira que ama o seu país, o seu estado, os seus costumes. Não adianta, trouxe no sangue esse amor pela minha pátria, pelo meu pago.

A Europa também me ensinou que não vou e nem posso mudar a cultura, o pensamento por aqui. O que devo fazer, e acho bem saudável, é observar as diferenças, procurar entendê-las e, na medida do possível, me adaptar a elas. Afinal, a forasteira sou eu!

 

Não importa a sua origem. Viaje, aventure-se, viva em sua plenitude! Garanto-lhe que não sairá ileso!

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Escrever, o que é o que é meu irmão?

Escrever é se desnudar para um estranho. É se entregar para o outro sem reservas, sem medos e sem amarras. Um outro que nem mesmo sabemos quem é, o que pensa, como vive. Um outro sem rosto, sem formas e sem expressão.Um outro que invade, vasculha e põe ao chão nossas vidas. Destrói nossos sonhos e faz desmoronar nosso castelinho de areia, cuidadosamente erguido.

Escrever é se deixar invadir. É experimentar a sensação violenta de um estupro, de esvaziamento, de dor. É estar sempre na zona perigosa do oceano, no lugar onde as ondas batem, quebram, rebentam. É estar sozinho, desamparado, como um bicho acuado.

Escrever não é não sentir medo. Mais, muito mais do que isso, escrever é publicar seus medos para o julgamento alheio. É dar a cara a tapa conscientemente. É caminhar tentando se equilibrar no escuro. É andar sempre na corda bamba. É se sentir só mesmo rodeado de gente.

Escrever não é bonito, não é fácil nem indolor. Escrever é sofrer, é gemer, é tremer. Escrever é agonia, é caos, é desespero. Escrever é insulto, é palavrão, é xingamento. Escrever é sufoco, é vertigem, é sussurro. Escrever é amparar, é amortecer, é segurar.

Escrever também, é grito, é liberdade, é vida!

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As irresistíveis Madeleines de Proust!

No caso, substituí o chá da narrativa de Proust por um bom mate amargo!

No caso, substituí o chá da narrativa de Proust por um bom mate amargo!

Estando eu aqui, do outro lado do oceano, o que me resta são as lembranças daí. E quando procuramos tudo é lembrança, tudo é saudade.

Conversando essa semana com uma francesa disse uma frase que no meu entender, parecia banal. Contei a ela da minha paixão irremediável pelas madeleines (pequenos bolinhos franceses em formato de concha), que compro semanalmente no mercado e viraram meu vício.

Imediatamente, ela questionou se eu conhecia a narrativa de Proust e das madeleines. Disse que não e de quebra, escutei uma história linda e cheia de encantos do famoso escritor francês Marcel Proust.

Em sua obra intitulada À la recherche du temps perdu (Em busca do tempo perdido), ele faz uma ligação singela,  delicada e irresistível entre o gosto da madeleine, acompanhado de um chá, e suas recordações de infância.

Como consequência, me veio à mente o cheirinho de bolo recém-saído do forno. Cheirinho daquele bolo de mãe, que realmente só as mães sabem fazer. Fiquei parada pensando nas minhas próprias lembranças. Minhas recordações da infância, que muito tem a ver com o paladar. Com um pai churrasqueiro e uma mãe doceira de mão cheia, não poderia ser diferente.

Acredito que o Proust tinha toda a razão. O paladar e o olfato são dois grandes responsáveis por nos fazer viajar milhas e milhas, por nos trazer para perto de situações do passado, por nos fazer embarcar em sensações e devaneios açucarados, com gostinho de laços e abraços, de chegadas e partidas, de lágrimas e sorrisos.

Obrigado Proust. Lá vou eu saborear mais uma madeleine! E você, o que te faz recordar esse gostinho bom da infância? Qual é a sua Madeleine de Proust?

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Finais felizes não me comovem

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Observando outros blogs de viagens, cheguei a conclusão que o meu blog é diferente. Ao invés de compartilhar fotos de belas paisagens, sorrisos e abraços, prefiro compartilhar meus sentimentos mais íntimos, a visão, a percepção que tenho das pessoas, das coisas, das ações e reações. Gosto de analisar o que há de bom por aqui sem perder o foco, sem me deslumbrar, e sem deixar de enxergar que há coisas boas também por aí. Acho mais sincero, mais junto. Sem tanta luz, tanta alegria, tanta fantasia.

Pessoas que parecem ser 100% do tempo felizes me enjoam. Esse teatrinho de felicidade me embrulha o estômago. Me nego a escrever um blog de coisas felizes, cheio de mentiras, de amenidades. A vida não é amena (pelo menos a minha não). E nem espero isso dela. Uma vida onde só existem coisas boas e pessoas felizes não me serve. Eu dispenso! Simples assim!

Um pouco de tristeza faz bem também. Faz bem para o corpo e para a alma. Ensina a crescer. Ensina a ter um olhar mais crítico, uma contemplação mais apurada.

E não adianta tentar dizer o contrário, viver é um eterno decepcionar-se. Tudo nos decepciona. Mais cedo ou mais tarde. Isso não é bom e nem ruim, apenas faz parte da vida. Não adianta tentar se esconder. As decepções vão te alcançar. Afinal de contas, o mundo corre.

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Dois países, duas realidades

Imagine uma pessoa qualquer, que ao entrar no mercado, não consegue distinguir, ou entender os rótulos dos produtos. Imagine, ao pegar um ônibus, alguém que precisa de ajuda para compreender qual é o seu destino. Imagine uma criatura que não consegue assimilar uma notícia que acabou de ler no jornal ou ouvir no rádio. Não, não estou falando de analfabetos, mas daquele sujeito que, reconhece as letras e consegue juntar as palavras, mas não entende seu sentido em uma frase e não é capaz de compreendê-la.

Assim é a vida de 68% de brasileiros entre 15 e 64 anos, considerados analfabetos funcionais. Esses são dados da Declaração Mundial sobre Educação para Todos. Ainda de acordo com essa declaração, apenas 1 entre 4 brasileiros consegue ler e escrever e utilizar essas habilidades para o exercício de aprendizado.

Um dado alarmante. Sem dúvida, o caminho para uma solução passa pela educação, passa pela leitura. E é aí que eu quero chegar. A leitura é um hábito que deve iniciar na infância e perseguir o indivíduo por toda a sua vida. Falta de tempo ou dinheiro não podem ser barreiras para esse hábito tão fascinante.

Em países europeus, é comum encontrarmos pessoas, muitas pessoas com livros nas mãos em ônibus e metrôs. Aliás, não carregar livros por lá, é indicativo de que és um turista en passant pela Europa. Enquanto no Brasil, a média de leitura anual é de 4,7 (contanto livros didáticos, de leitura obrigatória), em países como a França, esse número sobe para 11 e na Suécia 15 (dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pelo Instituto Pró-Livro).

Me deparei com uma cena no mínimo inusitada andando pelas ruas de Paris. Um mendigo dormia tranquilamente no banco de uma praça parisiense sendo escorado por Honoré de Balzac, Jean-Paul Satre e Gustave Flaubert. Ele estava simplesmente rodeado por livros, dormindo o sono dos justos. Confesso que invejei sua biblioteca particular e imediatamente pensei no Brasil, onde uma cena como essas só poderia ser vista no cinema.

Um país não cresce plenamente sem educação de qualidade e sem ávidos leitores. Pode começar por rótulos de xampu e bulas de remédios, o importante é não perder o hábito e disseminar o vírus da leitura e da vontade de crescer e evoluir como ser humano, em toda a sua complexidade. Só forjaremos um país melhor, com indivíduos melhores quando todos se derem conta disso.

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